Vamos refletir sobre cultura e consumo?

No dia 30 de junho, no auditório do teatro Eva Hertz, na Livraria Cultura, da Avenida Paulista em São Paulo, ocorreu o lançamento da tradução em português do relatório do World Watch Institute de 2010, intitulado Transformando Culturas: do Consumismo à Sustentabilidade, uma parceria entre o WWI e o Akatu. O relatório, um alentado documento de 267 páginas, traça um vasto panorama que vai da descrição de práticas cotidianas “sustentáveis” de outras culturas até as mais pioneiras iniciativas de diferentes sociedades na busca de um estilo de vida ecologicamente viável. Para quem se interessa pelo tema é um documento imperdível, pois além das informações contidas no corpo do relatório , ao longo de toda a introdução somos brindados com dados que nos chamam a atenção sobre o desequilíbrio entre o potencial que nosso planeta oferece e o quanto o estilo de vida atual demanda dos recursos naturais disponíveis. Mas além destes aspectos o relatório “levanta uma bola”, afinal de contas estamos ainda na Copa do Mundo, que dá margem para uma agenda inteira de debates e reflexões. A mais importante, na minha perspectiva, é a causa que ele atribui para a situação que nos encontramos. Segundo o WWI nossa situação de insustentabilidade ecológica advém da nossa cultura de consumo. Cultura esta que nos faz sentir realizados, aceitos, amados, reconhecidos entre outros apenas através dos bens materiais. Como estudiosa do tema consumo há vários anos tenho algumas questões que julgo importante serem discutidas:

1. Sabemos quão complexa é a relação entre cultura e práticas sociais. Neste sentido é possível se atribuir a um único conjunto de lógicas e valores que perpassa as sociedades contemporâneas a responsabilidade pela nossa insustentabilidade?

2. Existem sociedades nas quais um alto índice de consumo per capita se conjuga a um grande déficit ambiental mas que não se lhes pode atribuir uma cultura de consumo. Neste caso como fica esta relação?

3. A emulação por e a busca de status são os únicos motivadores para o nosso consumo? Onde ficam os demais mecanismos sociais que fazem parte do nosso universo?

4. Se temos que definir um consumo básico ao qual todos deverão ter acesso e cortar os supérfluos quem vai decidir o que é básico? Quais supérfluos serão cortados? Esporte, música, gastronomia, pintura, moda, ourivesaria, quais? Estaremos a caminho de regimes autoritários?

5. Consumo são práticas e a medida que realizamos alguma tarefa nossa expertise aumenta. E, a medida que nosso conhecimento e destreza em relação a uma prática aumenta, sentimos necessidade de novos instrumentos para o desenvolvimento daquela prática e de nossa expertise. Muito do desenvolvimento tecnológico surgiu a partir desses mecanismos, que articulam uma tarefa, nossa capacidade de realizá-la e os instrumentos utilizados na sua prática. Neste caso como faremos? Vamos manter nossas práticas e expertises no nível em que se encontram atualmente?

Bem, estas são algumas das questões que sugiro discutirmos. Não são simples, ao contrário , são extremamente complexas, mas vale a pena refletir sobre elas. Tenho certeza de que sobre a relação entre cultura, consumo e sustentabilidade um longo caminho ainda tem que ser desvendado.

Diretoria de pesquisa do CAEPM/ESPM
Livia Barbosa

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